Colheita florestal de eucalipto: dos sistemas de corte à madeira pronta para celulose
Nas florestas plantadas de eucalipto, uma etapa fundamental para a produção de celulose, papel e outros produtos é a colheita florestal. Afinal, para que a madeira possa ser utilizada para seu fim produtivo, independente de qual seja o tipo de cadeia florestal (movelaria, serraria, painéis de madeira, celulose etc), é a colheita que transforma a floresta em pé em madeira cortada, descascada e organizada para abastecer as fábricas.
A operação segue padrões técnicos e faz uso de diferentes sistemas e equipamentos, responsáveis por cortar, movimentar e transportar os troncos.
Neste texto, reunimos informações sobre os principais métodos de colheita florestal utilizados no Brasil, os equipamentos que integram esses sistemas e como influenciam diretamente a qualidade da matéria-prima destinada à indústria.
Boa leitura!

Foto: Acervo Bracell
O que é e quais são os sistemas de colheita florestal?
A colheita florestal é um conjunto integrado de operações realizadas no manejo florestal para preparar e extrair a madeira até o ponto de transporte, seguindo procedimentos técnicos predefinidos para entregar o produto nas especificações exigidas pela fábrica.
Essa etapa reúne atividades como derrubada ou corte e processamento, arraste ou baldeio e traçamento.
A escolha do sistema utilizado na colheita considera uma combinação de fatores, como a idade do povoamento, a espécie florestal, o objetivo do produto (como celulose), a topografia, as condições do solo, configuração do processamento da madeira na fábrica, demanda por biomassa, dentre outros.
Na prática, os sistemas são classificados pelo comprimento das toras e pela forma de extração até o local de processamento.
No Brasil, as grandes operações mecanizadas se concentram no sistema de colheita toras longas (cut-to-length), com a utilização de Harvesters e Forwaredrs, e nos sistemas de árvores inteiras (full-tree), utilizando-se máquinas como feller-buncher, skidder de garra traçadora.
Conhecendo o sistema cut-to-length
No setor de celulose, o sistema cut-to-lenght é mais utilizado do que o full-tree por atender às exigências de qualidade da matéria-prima. Nesse método, todo o processamento da árvore acontece diretamente no local de corte, onde são realizadas as operações de:
- desgalhamento;
- descascamento (quando necessário);
- e traçamento em toras, com comprimentos que variam entre seis e sete metros, conforme a necessidade da indústria ou a capacidade das máquinas de transporte.
O sistema é considerado o mais eficiente no processo de produção de madeira sem casca para produção de celulose de eucalipto, devido à capacidade de descascamento.
Nesse modelo, a execução é feita por harvesters, responsáveis por cortar e processar as árvores, e pelos forwarders, que transportam as toras já dimensionadas até as margens da estrada ou pátios temporários.
Conhecendo o sistema full-tree
Nesse sistema, a árvore é derrubada e carregada até a margem da estrada ou pátio, onde ocorre o processamento.
Normalmente, este processo utiliza o Feller Buncher para derrubar e amontoar as árvores inteiras em grandes feixes no interior do talhão.
Posteriormente, utiliza-se um trator para arraste dessas árvores até próximo à estrada, sendo o Skidder o maquinário mais utilizado nessa etapa.
Por fim, para o processamento das árvores, pode-se utilizar escavadeiras hidráulicas adaptadas com garras ou mesas traçadoras para confecção de toras ou, ainda, utilizar picadores de madeiras para produção de cavacos em campo.
Apesar de eficientes em termos de custo e produtividade, esse sistema apresenta limitações quando o objetivo é a produção de madeira sem casca, já que tradicionalmente não contam com equipamentos destinados ao descascamento
Confira as principais máquinas de colheita utilizadas no sistema full tree
Feller buncher
O feller buncher, conhecido como derrubador-acumulador, é responsável pelo corte, tombamento e agrupamento das árvores. Seu cabeçote de corte é o componente principal, podendo operar com diferentes ferramentas, como sabre, tesoura de dupla ação ou disco dentado.
Na prática, o equipamento funciona abrindo seus braços acumuladores em direção à árvore, que é cortada rente ao solo por meio do disco em alta rotação. Em seguida, o braço interno segura a árvore já cortada, permitindo que o processo seja repetido até atingir a capacidade máxima de acúmulo.
Veja nesse vídeo o feller buncher operando.
Skidder
O skidder é o equipamento responsável pelo arraste dos feixes de árvores ou de toras até a margem da estrada. Introduzido na década de 1960, tornou-se popular pela sua versatilidade, força, facilidade de operação e economia.
Esse trator florestal articulado pode ter diferentes tipos de tração (4×4, 6×6 ou 8×8) e versões sobre esteiras, sempre equipado com uma garra localizada na parte traseira, também chamada de pinça, acionada hidraulicamente para coletar os feixes.
Veja nesse vídeo o skidder em operação!
Garra traçadora e slasher
A garra traçadora e os slashers são versões adaptadas de carregadores florestais, mas com a capacidade de cortar as árvores no comprimento desejado antes do carregamento nos caminhões de transporte.
Na garra traçadora, o conjunto de corte está acoplado à garra do equipamento, permitindo que o operador, de dentro da cabine, faça o traçamento e organize pilhas de toras próximas à estrada, que serão carregadas posteriormente.
No slasher, o conjunto de corte não é instalado na garra. O corte acontece em uma mesa traçadora, onde as árvores são depositadas em feixes pelo braço do carregador. Uma serra acoplada à mesa realiza o corte simultâneo das árvores, acionado pelo operador na cabine.
Confira as principais máquinas de colheita utilizadas no sistema cut-to-length
Harvester
O harvester é a principal máquina do sistema cut-to-length. Equipado com uma base automotriz, um braço hidráulico e um cabeçote processador, consegue executar de forma sequencial o corte, a derrubada, o desgalhamento, o descascamento, o traçamento e a formação de pilhas de toras das árvores.
O cabeçote processador é o componente responsável pela versatilidade do equipamento, permitindo cortar árvores e transformá-las em toras de medidas pré-determinadas ainda no interior do talhão. O resultado é um ganho em eficiência, já que a madeira sai do campo pronta para a etapa de transporte.
Os havesters podem ser montados sobre pneus ou esteiras, escolha que depende do tipo de terreno, topografia e da condição da floresta.
Forwarder
Complementando o trabalho do harvester, o forwarder é responsável por transportar as toras processadas até a margem da estrada ou pátio intermediário. Essa máquina, articulada e equipada com uma grua hidráulica, carrega a madeira em sua própria plataforma, com capacidades que podem variar de 5 a 22 toneladas.
O equipamento se destaca por sua mobilidade em diferentes tipos de terreno e pela possibilidade de operar em distâncias mais longas. Durante o deslocamento, costuma trafegar sobre a camada de resíduos deixada pelo harvester, como galhos e cascas, o que ajuda a proteger o solo e reduzir impactos ambientais.
Por que a madeira sem casca é essencial na produção de celulose?
A remoção da casca da madeira favorece o processo de produção de celulose de eucalipto, pois aumenta a eficiência no processamento e na qualidade do produto final. A casca contém poucas fibras aproveitáveis e, quando presente, exige maior consumo de reagentes químicos, aumenta o teor de impurezas e dificulta etapas como a lavagem e a peneiração da polpa.
A madeira descascada assegura um melhor desempenho na alimentação dos picadores e no funcionamento interno das fábricas, evitando interrupções operacionais e custos adicionais decorrentes de não conformidades.
O fornecimento da madeira sem casca também atende aos rigorosos padrões das fábricas, vistas como um cliente final criterioso, que deve ter suas necessidades e demandas atendidas, assim como as exigências relacionadas à segurança e à sustentabilidade, importantes no mercado florestal.
A importância do desgalhamento e do descascamento
A principal premissa de um sistema de colheita de madeira voltado à produção de celulose é a capacidade de remoção de galhos e casca das toras. O descascamento realizado dentro dos padrões estabelecidos evita o envio de resíduos ao pátio da fábrica, onde eles representam custos adicionais para remanejamento e configuram material transportado indesejado.
Ao mesmo tempo, galhos e cascas são defendidos como importantes repositores de nutrientes no solo e, em algumas regiões, como elementos de proteção contra intempéries.
O cabeçote harvester, conhecido pela elevada tecnologia embarcada e por sistemas avançados de medição e controle, é a ferramenta responsável por executar o descascamento e o desdobramento com a qualidade exigida pelas indústrias.
Por meio de facas e rolos pulsantes preparados para rolar a madeira e retirar a casca, o processo realizado por esse equipamento atinge índices de eficiência superiores a 90%.
Comprimento da tora também deve ser considerado
Outro aspecto relevante nesse processo é a precisão no comprimento das toras processadas. O atendimento ao padrão exigido pelas fábricas é necessário para o bom andamento das etapas subsequentes, reduzindo desperdícios, melhorando o aproveitamento da matéria-prima e garantindo ganhos logísticos, como o melhor preenchimento dos modais entre a floresta e a fábrica.
Posicionado em rolos de tração ou nos cabeçotes processadores harvesters, o monitoramento é feito por sensores, que leem continuamente o comprimento e o diâmetro da tora em processamento e interrompem o movimento no ponto exato estabelecido.
Um processo de desdobra mais preciso, com tolerância mínima de erro, resulta em toras uniformes e na possibilidade de incrementar o comprimento estabelecido, normalmente definido a partir de médias que compensam imprecisões de medição durante a colheita.
Esse fator também está relacionado à segurança do transporte, já que falhas no comprimento ou no descascamento dificultam a amarração da carga, elevando o risco de queda durante o trajeto e de sujeira nas rodovias.
Em resumo
A colheita florestal é uma das etapas mais importantes da cadeia produtiva da madeira, responsável por disponibilizar matéria-prima em condições adequadas para a indústria. Conforme vimos até aqui, o processo pode utilizar diferentes sistemas de operação, como o full-tree e o cut-to-length, que usam máquinas para derrubada, processamento e transporte das toras.
Equipamentos como feller-buncher, skidder, harvester e forwarder são indispensáveis nesse contexto, permitindo a mecanização em larga escala e, consequentemente, o aumento da eficiência e da produtividade das colheitas.
Na produção de celulose, a possibilidade de obter a madeira descascada impacta diretamente na eficiência das fábricas e no padrão do produto final, contribuindo, ainda, com a sustentabilidade a partir do aproveitamento da casca em outras aplicações.
Se ficou com alguma dúvida sobre a colheita florestal, compartilhe conosco escrevendo no campo de comentário abaixo. Teremos o maior prazer em lhe ajudar!
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